Um moto clube só delas

Diversão, fraternidade e ação social definem o moto clube Ciganas Estradeiras de Vicente Pires

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Com sede em Vicente Pires, mas sempre em movimento pelas estradas e avenidas, o Moto Clube Ciganas Estradeiras (MCCE) chama a atenção por onde passa ou, principalmente, quando estaciona. De visual marcante, personalidade destemida e espírito livre, as associadas Rosa, Judy, Anny, Hudy, Miguxa, Anna, Maria Bonita e Gaby Ciganinha trazem sobre as rodas individualmente sua história de vida e atividades diárias diferentes, porém conectadas por uma paixão em comum, a motocicleta.
Unidas, elas só querem curtir a vida, esquecer os problemas, conhecer novas pessoas e rodar, rodar muito por aí, seja no Distrito Federal, Goiás ou aonde mais o espírito ousado levar. Elas trazem essa ideologia bem descrita no brasão do MCCE – In vanum, sine via et sine détino, que significa “sem rumo, sem rota e sem destino”. E vem daí a explicação para o nome escolhido para o moto clube, já que nenhuma delas é cigana de fato. A fundadora do grupo e atual presidente, Rosângela Ferreira, rodava sozinha em sua moto e ganhou o apelido de Rosa Cigana, por não parar quieta num lugar só, sempre viajando.
Depois de um tempo rodando sozinha, Gaby Ciganinha se juntou à Rosa, elas se tornaram um moto grupo (nome usado quando se tem até seis integrantes). Depois, mais ”ciganas” foram agregando e formaram o moto clube, com registro, sede, brasão e muitas histórias para contar ao longo dos quatro anos de existência. Hoje, devido às solicitações do público masculino, o grupo deixou de ser exclusivamente feminino e aceita também os “ciganos” apaixonados por motocicletas.
“Muitas pessoas nos perguntam se somos ciganas mesmo, até pedem para lermos a mão, ver o passado e essas coisas. É engraçado, mas sempre explicamos que não temos essa ligação cultural com os ciganos, é só pelo fato de nunca estarmos paradas. Na mesma hora que estamos aqui em Brasília já vamos pra Pirenópolis, ou fazer algum passeio nas redondezas. Estamos programando uma viagem para Fortaleza no início do ano que vem. Só paramos quando temos que trabalhar mesmo, o nosso negócio é estar na estrada”, diz Anny Aquino, presidente do MCCE.

No Natal em ação conjunta com outros moto clubes, as ciganas se fantasiam e entregam doações para população carente


As Ciganas Estradeiras estão sempre vestidas com o colete do moto clube e o chamam de “segunda pele”. Seja jeans, de couro preto ou vermelho, ele desempenha várias funções, desde a identificação de cada integrante até o pedido de socorro. Quando uma motociclista transita sozinha e a moto por ventura apresentar algum defeito, ela tira o colete e o coloca sobre a moto estragada – esse gesto é prontamente identificado por outros motociclistas que sabem que ali tem um “irmão” precisando de ajuda.
Muito além dos quesitos diversão e lazer, o moto clube Ciganas Estradeiras traz na sua essência uma preocupação com os necessitados e carentes. Ao longo do ano, elas promovem diversas arrecadações para ajudar pessoas que estejam doentes e passando necessidade de alimentos ou outros itens. “Estamos sempre presentes ou encabeçando alguma ação social. Acreditamos em um código de honra que não está escrito em nenhum lugar, mas é ele que nos rege: irmandade, igualdade, honra e respeito ao próximo” aponta a presidente, Rosa Cigana.
Segundo ela, quando se diz “respeito ao próximo” inclui um “olhar caridoso para os mais necessitados”, seja vítima de uma tragédia, doença, acidente ou até mesmo levar alegria em datas comemorativas. No Natal, vários moto clubes se unem e promovem um belo evento para crianças carentes, Rosa Cigana se veste de mamãe Noel, outro voluntário de papai Noel e fazem a alegria da criançada de alguma instituição escolhida por eles. Agora para o ia das crianças o grupo está preparando uma festa para as crianças no Centro Olímpico da Estrutural. A concentração dos motociclistas será dia 6 de outubro (sábado) às 10h, no Florida Mall (Guará), de lá seguem com as doações de brinquedos e alimentos para a Cidade Estrutural.
Recentemente, o MCCE fez um passeio para levar uma menina de 10 anos que está com câncer e tinha o sonho de andar de moto em grupo. “Juntamos mais de 50 motociclistas e realizamos o sonho dela. Além disso, cada uma fez uma contribuição em dinheiro para o tratamento de saúde”, conta Rosa Cigana. E também em ação conjunta com outros moto clubes, elas doaram uma cadeira de banho, fraldas e alimentos a um senhor com mais de 80 anos de idade, morador de Lúcio Costa, que sofre com osteoporose. Para o próximo mês, a Casa do vovô em Vicente Pires receberá uma ação social do grupo.
“Muitas pessoas nos questionam sobre como nos vestimos, alguns acham nosso visual sobrecarregado, ou pesado por conta das caveiras que usamos nas roupas e nos brasões. Para nós, a caveira representa a nossa igualdade como seres humanos. Por baixo da pele somos todos iguais, sem distinção de classe social, cor ou crença, e também caracteriza as nossas próprias limitações e do nosso destino moral que é igual ao de todos”, afirma Anny Aquino.

A menina Julia (na garupa à esuerda) que está em tratamento contra o câncer tinha o sonho de andar de moto, mais de 50 motociclistas sem uniram e realizaram o sonho dela.