Gilberto Camargos – “Vicente Pires é uma ilha num mar revolto”

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O presidente da Associação de Moradores de Vicente Pires e Região, Gilberto Camargos é um dos líderes comunitários mais controversos do Distrito Federa. Com seu inconfundível chapéu Panamá na cabeça, tem lutado contra a regularização de Vicente Pires como propõe o governo e em prol de várias outas pautas da cidade. Pré-candidato a deputado distrital, o mineiro de Bom Despacho vive em Vicente Pires há 25 anos e acompanha de perto a evolução da cidade. Editor do jornal Conversa Informal recebeu em sua casa a equipe do Jornald e Vicente Pires para esta entrevista.

A Amovipe
“Na associação estou há 6 ou 7 anos, mas antes disso, o trabalho já era feito por um grupo há 25 anos. Fazendo o mesmo trabalho: parando os tratores das derrubadas, contendo as propinas que o pessoal recebia e continua a receber aqui dentro pra destruir a cidade, denunciando as falsificações de documento aqui dentro, que levaram meus filhos a sequestros e a 38 ameaças de morte que tenho por fazer oposição a governos que vem fazer de Vicente Pires a galinha dos ovos de ouro.
Temos mais de 220 grupos de WhatsApp, e aqui dentro a Amovipe manteve o Posto de Saúde, sou presidente hoje do Conselho de Saúde daqui. Nós fechamos a EPTG porque o governo veio pra fechar o posto de saúde, tudo que está no posto hoje, como geladeira, impressora, galões de água nós que pedimos. Por isso uso o chapéu, porque saio pedindo pros moradores, coletando no chapéu pra conseguir as coisas. Conseguimos as cadeiras de dentista do Posto de Saúde de uma OnG em Manaus. E por isso nosso posto saiu na mídia como o melhor do Distrito Federal. A população conseguiu trazer o Samu pra dentro do posto. Foram gastso R$ 50 mil reais pra trazer o Samu pra dentro do posto, e trazer duas ambulâncias. A segunda unidade do Posto de Saúde foi doação dos síndicos, dos moradores e da associação e a Administração passada forneceu a mão de obra para construir o posto que será inaugurado na Vila São José. O posto só não foi fechado porque (em protesto) fechamos a EPTG algumas vezes”.

Nova
Associação Comercial
“Estamos fundando agora a nova Associação Comercial de Vicente Pires, a Acomvipe. Que é uma associação que vai atender deste a dona Maria Costureira, o João Borracheiro até o maior empresário de Vicente Pires, sem cobrar taxa. Porque todo nosso trabalho é voluntário. Não existe líder se ele não serve. Eu sirvo a minha cidade durante toda a vida. Todo mundo na cidade me conhece, mas não sou um líder e sim um servo. Então, pra isso nós criamos os grupos da associação onde o pessoal consegue fazer negócio através do WhatsApp. Criamos também o grupo de segurança, os grupos do posto de saúde, o grupo que faz contato com a administração… A comunidade está muito unida’.

Regularização complicada
“A regularização de Vicente Pires é uma fraude por parte do governo. Primeiro, o local que estamos agora é a fazenda Brejo ou Torto e esta fazenda começou como uma fraude em 1924 quando morreu o coronel Salviano Guimarães, que era o dono da fazenda. Tudo que estou falando tenho a documentação aqui. Esta fazenda, quando entrou em desapropriação, esta gleba, a ação é de 30 de abril de 1959, contra a família Dutra Vaz. De lá pra houve fraude de todos os tipos, a família Dutra Vaz, na regularização deste trecho, que não está acontecendo e não sei quando vai acontecer, vai prejudicar muita gente ainda mas não vai pra regularização tão cedo, porque na justiça desde 30 de abril de 1959 até agora, e existem várias fraudes nela, incluindo a operação Perímetro. Não existe regularização na fazenda Brejo ou Torto agora. Já a fazenda Vicente Pires entrou em regularização arbitrariamente, porque, primeiro, a Terracap não é a proprietária da fazenda. Esta fazenda tem 1.162 alqueires e destes, houve uma fraude, na época feita pela família Roriz, os Roriz de Luziânia, dentro da fazenda e conseguiu ser inventariante mesmo não sendo parentes dos proprietários e receberam 400 alqueires. Dois irmãos, venderam os 400 alqueires pro Estado de Goiás. O Estado de Goiás conseguiu fazer uma escritura de 970 alqueires pra revender pro Distrito Federal, escritura esta que a Terracap tem hoje. Porém, ela vem de uma fraude, e esta escritura não tem registro em cartório e tem divergências absurdas nas divisas lá dentro”.
Um exemplo de como a grilagem foi feita, grilagem esta feita pelas empresas públicas, é que o córrego que passa ao fundo de Samambaia não chama Samambaia, conforme colocaram, nos documentos antigo. Ele chama-se Vicente Pires, e o córrego que hoje eles chamam de Vicente Pires chamava-se Cabeceira do Vale, que é o que passa ao fundo do Guará. Esta é a história hereditária da cidade. Se a Terracap tivesse 970 alqueires, mesmo assim ela teria que fazer demarcação da área porque a fazenda tem 1.162 alqueires. Tem que devolver o resto pra família. A Lei 13.465/2017 diz que não se pode haver regularização em terras onde tem litígio. Então não pode ter regularização”.

Questão Social
“O que o povo precisa? Se fosse da Terracap precisaria de preço e hoje um lote lá no buraco tem o mesmo valor de um lote lá na beira do Taguaparque, áreas totalmente diferentes, uma área super valorizada e outra que não tem valor nenhum. Temos também dentro da Colônia Agrícola Samabaia cerca de 30% de família que tem direito a Reurb-S, ou o Social, e os outros tem Reub-E. Essas pessoas não tem condições de pagar e o governo está expulsando-as de dentro das casas com a alegação de que o benefício é por uma área territorial. Por exemplo, a Vila São José inteira foi colocada como Reurb-S. Porém, na Vila São José tem empresários e tem até mansão lá dentro, ao passo que na Colônia Agrícola Samambaia também. Então, no nosso entender, a Reurb deveria ser feita de acordo com as pessoas e não com a região. Aí entra outro impasse, uma alegação do Júlio (Júlio César Reis, presidente da Terracap) que não vai fazer Reub-S lá dentro porque as pessoas tem o imóvel maior que o que é permitido na lei, que seria 250 metros quadrados. Olha, vamos analisar um pouquinho: quando eu comprei esta casa aqui há 25 anos, isto aqui era um mato, só chácaras. Não tinha rua, era só um trilho, não tinha valor, daí eu ter conseguido comprar um lote de 450 metros quadrados. As pessoas que tem lotes maiores lá, comprou quando não tinha nenhum valor, era mais barato comprar um lote maior lá no brejo da Colônia Agrícola Samambaia do que comprar um lote na Ceilândia, no Sol Nascente de 200 metros quadrados. A pessoa optou por aquilo. A minha casa tem 25 anos que estou construindo ela. Mesmo um assalariado ele pega um pouquinho cada mês, vai comprando um tijolo, dois tijolos, vai montando uma casa, depois de 30 anos morando num lugar ele tem uma casa boa, não quer dizerque ele não tenha necessidade de entrar na Reurb”.

Obras
“As obras são o maior problema que temos no momento. Não é o problema causado pelo andamento das obras não. Os R$ 508 milhões (enviados pelo governo) foram perdidos em licitação no governo do PT, e a Amovipe conseguiu recuperar através do presidente do Tribunal de Contas (do DF), Renato Rainha, que participou ativamente e conseguiu que a Novacap fizesse a nova licitação e os contratos com as empresas na época. Esse projeto foi feito em 2007, e quem pagou todo este projeto foi a população, que repassou o dinheiro pra Amovipe. Foram feitas 32 reuniões ou audiências públicas para se chegar a este projeto. Naquela época, o que era solução virou problema hoje, porque os projetos previam a duplicação das vias e acessibilidade, pois temos hoje 78 deficientes, 278 pessoas com dificuldade de andar, milhares de idosos e 98 mil habitantes, ou pedestres. Tinham que fazer calçada com acessibilidade em frente de todas as lojas, em todas as ruas, duplicação das principais ruas de Vicente Pires, três pontes ligando Vicente Pires ao Jóquei Clube, três pontes ligando Vicente à Colônia Agrícola Samambaia. O motivo disso é muito simples: Vicente Pires é uma ilha num mar revolto. De um lado temos a EPTG que é lotada o dia inteiro de carro, do outro lado a Estrutural, que cedo só vai pro Plano Piloto e à tarde só volta, e durante o dia não tem um viaduto de acesso à Vicente Pires. Em Taguatinga tem o pistão e do outro lado o Jóquei Club, todos lotados. Se naquela época já tinha a necessidade disso, hoje muito mais”.

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